A educação ambiental é também uma educação para a paz
Não cabe, em educação ambiental, um ensino do tipo mero transmissor de conhecimentos pois os problemas ambientais de nosso mundo não resultam na falta de conhecimento ou informação, caso contrário, pessoas bem informadas não promoveriam agressões ambientais. A educação ambiental deve buscar a motivação do aluno para a mudança de atitudes, de valores, sensibilizá-lo para a transformação ambiental de sua realidade, estimular uma nova ética mais solidária e responsável tanto com nossos semelhantes quanto com os demais seres da Criação. Os alunos não são ‘páginas em branco’ sem história ou experiências ambientais anteriores, pois já trazem uma bagagem ambiental, só que essa visão é às vezes romântica, como se as questões ambientais dissessem respeito apenas às plantas e aos bichos, uma visão embrionária de cidadania, onde o mundo melhor que desejamos começa no outro, uma visão utilitarista, onde o Planeta e os outros seres não passam de recursos, justificando o seu uso e abuso em nome do desenvolvimento da espécie humana. Os meios de comunicação, principalmente a televisão, exibem grande número de informações ambientais, no entanto, não possuem o caráter pedagógico requerido para o ensino do meio ambiente, mas isso não significa que se deva recusá-los. É mais o caso de complementá-los, lidando com as informações e conceitos veiculados para ajudar os alunos na reflexão sobre os fatos, relacionando-os com suas realidades vividas. Nesse processo, os alunos ao mesmo tempo que adquirem os instrumentos intelectuais necessários para a compreensão do mundo em que vivem, motivam-se a transformá-lo, buscando solução real para os problemas apresentados, atacando suas causas. Neste sentido, se adequadamente utilizada, os meios de comunicação podem se tornar importantes instrumentos do professor na formação do aluno, como, por exemplo, usar em sala de aula jornais, revistas, vídeos com temas ambientais. Outra idéia interessante é aproximar o aluno de seu meio ambiente através de passeios ecológicos, estudo do meio, estudo de caso, etc., que estimulem a troca de informações, visões e experiências sobre o meio ambiente na comunidade, seus problemas concretos e possibilidades de solução, seguido de debates cidadãos e trabalhos científicos, mas agora num clima de interesse pelos fenômenos naturais e os conceitos sobre a natureza, a idéia de ecossistema, as cadeias alimentares, os ciclos naturais, o profundo poder de interferência da espécie humana na modificação – para pior ou melhor – do seu meio ambiente. Os alunos estarão partindo do local para o global, da realidade que conhecem e dominam para a que não conhecem e desejam dominar.
Os debates podem ser momentos muito ricos de possibilidades envolvendo o convite a ambientalistas, líderes comunitários, agentes governamentais, promotores públicos, pessoas que lidam com a problemática ambiental local preparando os alunos antes para aproveitarem bem o encontro, realizando perguntas interessantes que os motivem para a participação cidadã ambiental. Nenhuma experiência seria mais enriquecedora que a organização, com os próprios alunos de um grupo ambiental na escola, como os Clubes de Amigos do Planeta. Ao mesmo tempo em que vão tomando conhecimento sobre a problemática ambiental em seus diversos aspectos, sobre as alternativas de soluções, sobre a necessidade de mudança de valores e atitudes, também vão construindo a própria cidadania ambiental, passam a valorizar o trabalho em equipe pelo bem comum, aprendem a ser democráticos, ou seja, a discutir e negociar opiniões diferentes num ambiente pacífico sem precisar recorrer a armas ou agressões físicas. Neste sentido, a educação ambiental é também uma educação para a paz.
A Mudança Começa em Nós
Todos nós desejamos viver num mundo melhor, mais pacífico, fraterno e ecológico. O problema é que as pessoas sempre esperam que esse mundo melhor comece no outro. É comum ouvirmos pessoas falando que têm boa vontade para ajudar, mas como ninguém as convida para nada, nem se organizam, então não podem contribuir como gostariam para um mutirão de limpeza da rua, por exemplo, ou para plantio de árvores. Pessoas assim acabam achando mais fácil reclamar que ninguém faz nada, ou que a culpa é do “Sistema”, dos governantes ou empresas, mas não se perguntam se estão fazendo a parte que lhes cabe. Por outro lado, é importante não ficar esperando a perfeição individual - pois isso é inatingível. O fato de adquirirmos consciência ambiental, não nos faz perfeitos. O importante é que tenhamos o compromisso de ser melhor todo dia, procurando sempre nos superarmos. Também não podemos cometer o erro de subordinar a luta em defesa da natureza às mudanças nas estruturas injustas de nossa sociedade, pois devem ser lutas interligadas e simultâneas, já que de nada adianta alcançarmos toda a riqueza do mundo, ou toda a justiça social que sonhamos, se o planeta tornar-se incapaz de sustentar a vida humana com qualidade. As questões ambientais estão inter-relacionadas também à questão da identidade cultural de uma comunidade. Ao migrar das cidades do interior para os grandes centros urbanos, além de todos os problemas que acarretam com o crescimento das cidades, as pessoas perdem muito de sua identidade cultural, sua memória. Se no interior, apesar das dificuldades, as pessoas tinham nome e sobrenome, eram conhecidas, nas cidades estão isoladas, como se fosse num mar enorme, de gente por todos os lados, mas gente desconhecida. Sem identidade cultural, importa muito pouco saber que o patrimônio da coletividade, seja ambiental, seja arquitetônico, histórico, cultural, a própria rua, a praça, está sendo ameaçado ou destruído. À medida que essa gente não se sente dona desses espaços coletivos - que são considerados como terra de ninguém ou como pertencentes aos governos dos quais não gostam - também não se mobilizam em sua defesa. Assim, não há nenhuma sensação de perda diante de uma floresta que deixa de existir ou de um lago ou manguezal aterrado, pois a população residente, em sua maior parte, por não ter identidade cultural com o lugar em que vive, também não se sente parte dele. Esse fenômeno acontece, hoje, principalmente nas periferias das grandes cidades brasileiras, onde se concentram milhares de trabalhadores que usam as cidades apenas para dormir constituindo-se em mão-de-obra pendular casa-trabalho/trabalho-casa das grandes cidades. Existe uma grande população, mas não um grande povo. Um educador ambiental, por exemplo, precisa ter clara compreensão dessa realidade, procurando também associar-se às lutas populares pelo resgate cultural e desenvolvendo técnicas, como a memória viva, para iniciar uma formação de identidade cultural dos educandos com o lugar em que vivem. Nesse ponto retorna a questão fundamental da linguagem. É preciso partir da percepção dos educandos sobre o que são as questões ambientais, e não da dos educadores, para que os alunos assumam como suas as melhorias ambientais e a defesa de seu patrimônio ambiental, e não uma imposição dos governos ou da escola. Nesse sentido, o professor não deve pretender ser um condutor de novos conhecimentos, pois não se trata apenas de estimular o aluno a dominar maior número de informações, mas assumir o papel de estimulador, motivador, instrumento, apoio, levando os alunos a elaborarem seu próprio conhecimento sobre o que seja meio ambiente e o aluno pode fazer para evitar as agressões. A educação ambiental, à medida que se assume como educação mais política do que técnica, assume também o processo de formadora da identidade política e cultural de um povo. Nesse sentido, alinha-se a todas as lutas e movimentos da sociedade pela cidadania. O educador ambiental deve procurar colocar os alunos em situações que sejam formadoras, como por exemplo, diante de uma agressão ambiental ou de um bom exemplo de preservação ou conservação ambiental, apresentando os meios de compreensão do meio ambiente. Em termos ambientais isso não constitui dificuldades, uma vez que o meio ambiente está em toda a nossa volta. Dissociada dessa realidade, a educação ambiental não teria razão de ser. Entretanto, mais importante que dominar informações sobre um rio ou ecossistema da região é usar o meio ambiente local como motivador, para que o aluno seja levado a compreender conceitos como, por exemplo: • Visão física: Nada vive isolado na natureza. Assim como influenciamos no meio, somos influenciados por ele. Um ser depende do outro para sobreviver. Não existem seres mais ou menos importantes para o conjunto da vida no planeta. A única coisa importante é a rede de relações que todos os seres vivos mantém entre si e com o meio em que vivem. Rompida esta "teia", ou diminuída em sua capacidade, a vida corre perigo. • Visão cultural: O meio ambiente não é constituído apenas pelo mundo natural, onde vivem as plantas e os animais, mas também pelo mundo construído pelo ser humano, suas cidades, as zonas rurais e urbanas. Estes dois mundos relacionam-se e influenciam-se reciprocamente. Somos resultado dessas duas evoluções, a natural e a cultural. • Visão político-econômica: O poder não está distribuído de maneira igual por toda a humanidade, sendo diferente, portanto, a distribuição das responsabilidades de cada um pela destruição do planeta e pela construção de um mundo melhor. Cada cidadão pode e deve fazer a sua parte, mas os empresários, políticos, administradores públicos, etc., têm uma responsabilidade muito maior. Atrás de cada agressão à natureza estão interesses sócio-econômicos e culturais de nossa espécie, que usa o planeta como se fosse uma fonte inesgotável de recursos. As relações entre a espécie humana e a natureza estão em desequilíbrio por que refletem a injustiça e desarmonia das relações entre os indivíduos de nossa própria espécie.
• Visão ética: A mudança para uma relação mais harmônica e menos predatória e poluidora com o planeta e as outras espécies depende de todos, mas especialmente começa em cada um de nós, individualmente, através de dois movimentos distintos: um para dentro de nós mesmos e de nossa família, com adoção de novos hábitos, comportamentos, atitudes e valores; e outro para a sociedade em torno de nós, buscando a união com outros cidadãos para influir em políticas públicas e empresariais que levem em conta o planeta, a qualidade de vida, a justiça social. Logo, por mais que o ensino para o meio ambiente mude de lugar para lugar, em função das diferentes realidades, alguns princípios estão presentes praticamente em todas as situação, tais como: • Defina palavras e conceitos - Defender a natureza, a flora e a floresta, o meio ambiente, a ecologia. Preservar os ecossistemas e os habitats, combater a depredação dos recursos naturais, a poluição de mananciais e do lençol freático. São palavras e conceitos que se tornaram comuns hoje em dia, mas afinal, do que se trata? É preciso definir o que se está falando, tomando o cuidado de não cair num tecnicismo que distancie o aluno da ação transformadora que ele precisa empreender como cidadão de seu tempo. • Mostre a importância - Por mais sério que seja, ninguém consegue ter a sensação de importância por uma coisa abstrata, fora de sua realidade. Antes de se importar com a sobrevivência das outras espécies, o aluno precisa estar consciente de sua própria importância, sua capacidade de interferir no meio ambiente e de agir como cidadão. Afinal, como respeitar espécies consideradas inferiores se o aluno percebe que não há respeito entre os indivíduos de sua própria espécie? • Estimule a reflexão - A cada ação deve corresponder uma reflexão, pois não é possível pretender transformar o mundo ou criar uma relação mais harmônica com a natureza ou os outros indivíduos de nossa própria espécie baseando-se apenas no academicismo, onde se acumula um volume imenso de conhecimentos e informações sem que isso reverta em melhoria das condições de vida; ou no tarefismo, onde se procura transformar o mundo pela ação direta, como se nosso esforço fosse o suficiente para contagiar a todos. O equilíbrio entre as duas forças deve ser o objetivo de uma boa educação para o meio ambiente. • Estimule a participação - Uma vez que o aluno já domina um mínimo de conhecimentos sobre palavras e conceitos e está consciente sobre a importância de seu papel como agente transformador o próximo passo é a participação. É no enfrentamento dos problemas de seu cotidiano que o aluno se formará como cidadão. Além disso, o jovem não precisa chegar à maioridade ou ter um diploma técnico para só então defender seus direitos a um meio ambiente preservado, pois cada omissão equivale à destruição de mais e mais recursos naturais, de mais e mais poluição. A mudança deve começar já, inicialmente através de novas atitudes e comportamentos, mas logo a seguir procurando engajar-se nas ações da sociedade em defesa do meio ambiente e da qualidade de vida. Para estimular os alunos, uma boa técnica é estabelecer parceiras com os grupos ecológicos comunitários do lugar, convidando-os para se integrarem ao trabalho na escola. • Interesse-se a descobrir coisas novas - Um diploma de conclusão de curso não significa o domínio total de um conhecimento. A gente continua aprendendo sempre. Interesse seus alunos pelos estudos da natureza, lendo com eles notícias recentes de jornais e revistas, comentando a última programação sobre ecologia na televisão. Estimule cantinhos da natureza na sala de aula, museus naturais, álbum de recortes, leituras coletivas de materiais etc. • Faça junto com eles - O exemplo vale mais do que mil palavras. Os alunos são bastante impressionáveis diante da figura do professor. Ver o professor falar, falar, mas não agir conforme o que fala é desestimulante para os alunos e, ao mesmo tempo, um apelo ao não-agir, considerar o ensino para o meio ambiente como mais uma disciplina aborrecida que deve ser estudada apenas para tirar uma boa nota. Aproveite a oportunidade e engaje-se com seus alunos na tarefa de se construir as novas relações com o planeta, afinal, essa é uma tarefa de cidadania, muito mais que um compromisso de trabalho. • Saia da sala de aula - O meio ambiente da sala de aula não é o mais adequado para ensinar sobre o mundo que está lá fora. Sair da sala de aula, entretanto, traz inúmeros problemas quando se dispõe de apenas 45 minutos para uma aula. Uma das soluções pode ser mutirão pedagógico com colegas de outras disciplinas, o que reforça o caráter interdiciplinar do ensino para o meio ambiente. Outra possibilidade é sugerir aos pais dos alunos que façam incursões em finais de semanas ou feriados para realizar estudos do meio ou investigar e fotografar um problema ambiental, levando no carro dois, três ou mais coleguinhas dos filhos. E isso nem é uma proposta absurda, já que muitos pais ajudam os filhos nos trabalhos escolares, e não deixa de ser um passeio interessante, além de promover a integração entre pais e alunos, escolas e comunidade.
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Educação Ambiental e Cidadania Ativa
Qua, 13 de Maio de 2009 23:20
Vilmar Berna
As árvores não são derrubadas, a fauna sacrificada ou o meio ambiente poluído porque nossa espécie desconhece os impactos dessas ações sobre a natureza. A destruição da natureza não resulta da forma como nossa espécie se relaciona com essa natureza, mas da maneira como se relaciona consigo mesma. Ao desmatar, queimar, poluir, utilizar ou desperdiçar recursos naturais ou energéticos, cada ser humano está reproduzindo o que aprendeu ao longo da história e cultura de seu povo, portanto, este não é um ato isolado de um ou outro indivíduo, mas reflete as relações sociais e tecnológicas de sua sociedade. Seres humanos explorados, injustiçados e desprovidos de seus direitos de cidadãos compreendem com dificuldade que é anti-ético fazer o mesmo com animais e plantas, considerados inferiores pelos humanos. A atual relação de nossa espécie com a natureza é apenas um reflexo do atual estágio de desenvolvimento das relações humanas entre nós próprios. Vivemos sendo explorados, achamos justo e legítimo explorar. É ilusão pretender que a educação ambiental sozinha será capaz de enfrentar estes enormes desafios. A população tem uma visão romântica da ecologia, associando-a mais em defesa do verde e, por extensão, das árvores e animais. Nessa visão, o ser humano não faz parte da natureza, por isso pode fazer com ela o que quiser. Por mais que julgue as questões ecológicas importantes, a maioria da população as considera secundárias, pois o mais importante é lutar por moradia, alimento, emprego, escola, bons salários etc. As questões ambientais são importantes também, mas inoportunas e secundárias diante dessas outras prioridades. Sabemos no entanto, que sem um meio ambiente preservado não há qualidade de vida, que os ambientes natural e humano deveriam viver em harmonia. Na verdade, as lutas por melhores condições de vida travadas por sindicatos, associações de moradores e outras entidades da sociedade civil, por exemplo, tem uma enorme relação direta com o meio ambiente. Só democratizar a informação ambiental não é suficiente sem uma articulação com a educação ambiental, afinal, não é pelo maior ou menor volume de informações que a população aprende a pensar criticamente e atuar em seu mundo pra transformá-lo, se não tiver uma cultura e uma formação que predisponha as pessoas a valorizar esta informação. Sem isso, as pessoas vão pouco a pouco tornando-se insensíveis diante da informação, como se fosse mais uma espécie de poluição onde as palavras perdem o significado e importância, e tanto faz saber que derrubaram uma árvore ou uma floresta. A educação, por sua vez, não se dá ao vácuo, mas inserida em seu tempo e no contexto. Deve, portanto, saber aproveitar dos meios de comunicação seu compromisso com o contemporâneo, trazendo a realidade vivida para o processo educativo, crítico e participativo, adequado à realidade dos alunos. Por outro lado, não há educação ambiental sem participação política. Não basta estimular a participação dos cidadãos e não garantir os instrumentos de acesso à informação, primeiramente, pois sem ela dificilmente o cidadão consegue se mobilizar, e garantir canais de participação, com comitês e conselhos paritários, e, finalmente, instrumentos que permitam aos cidadãos participarem do estabelecimento das regras do jogo. A educação ambiental é fundamentalmente uma pedagogia de ação. Não bata se tornar mais consciente dos problemas ambientais, sem se tornar também mais ativo, crítico e participativo. O comportamento dos cidadãos em relação ao seu meio ambiente, é indissociável do exercício da cidadania.
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